Lapa de Santa Margarida



A poucos mas difíceis passos do Portinho da Arrábida, entre a Praia de Alpertuche e a Praia dos Pilotos, há uma pequena lapa, sobre o mar Atlântico. Foi lustrada com a construção de uma capela, infelizmente maltratada, mas felizmente visitada.


Como chegar à Lapa de Santa Margarida?


Descobrir o trilho de acesso à Lapa de Santa Margarida não é difícil, seguindo a Rua do Portinho da Arrábida, ou seja, indo pela estrada que nos guia até à Praia dos Pilotos, ao Forte de Santa Maria da Arrábida, ou à Praia do Portinho da Arrábida, vemos, do nosso lado esquerdo, uma grande casa branca protegida por uma longa parede – o Lar de Férias da Casa do Gaiato, mesmo à sua frente, isto é, do nosso lado direito, estende-se um caminho de gravilha com aparência de ser parco em surpresas, desengane-se que é mesmo por aí que deve ir.


Poucos metros à frente encontrará uma escadaria à esquerda, em parte encoberta pela vegetação, e seguindo por aqui seremos encaminhados, depois de mais de duas centenas de degraus, até um miradouro que quase nos faz tocar na espuma cuspida pelo embate das vagas na rocha, aí damos com uma abertura debruada com uma pequena escadaria, é esta a porta para a gruta.


Um aviso: em dias de tempestade ou de mar bravo, pode não ser boa ideia a visita, além do escadório ser apertado à medida que vamos descendo, convém lembrar que junto à entrada da gruta estamos praticamente ao nível do mar, sendo possível que este chegue até nós e nos arranque da terra em dias de mar bravo.


Em alternativa, dependendo da maré, também se consegue chegar à Lapa de Santa Margarida pelo mar, embora tal manobra não seja para aqui chamada. Fica exclusiva de quem sabe o que faz com a mão no leme, como por exemplo a Discover The Nature que numa das suas atividades o "COASTEERING" entra na Lapa pelo mar.


Entrada na Lapa de Santa Margarida

A gruta e a capela


A cavidade é natural, uma perfuração feita vezes sem conta pela violência das ondas atlânticas em paredes cársicas (para além de outros processos de erosão, dado que aquando do seu surgimento a linha costeira estaria umas centenas de metros mais a diante), o batimento deu origem a um profundo buraco que, contando com todas as suas reentrâncias, se alonga para lá dos vinte metros.


Apesar de mostrar vastos sinais de vandalismo (não se percebe o porquê de se querer fazer mal a um espaço tão único, que a única coisa que pede é que seja deixado em paz) mantém a sua límpida humidade na pedra reluzente e ao mesmo tempo opacada pelo breu que se faz notar no primeiro segundo em que lá entramos.

Aspeto original do Altar

Está cerca de cinco metros acima do nível médio do mar, aguentando o peso da montanha que a sobrepõe através de pilares de aparência hialina, estalagmites que foram crescendo até se derreterem no tecto, estalactites que fizeram o mesmo em sentido inverso. Parece que muitas outras estalagmites e estalactites, mais pequenas, foram partidas e roubadas por gente sem decência cívica: há relatos de muitas serem aqui vistas, hoje só com alguma procura é que eventualmente damos com alguma.


E ao fundo avista-se uma pequena ermida assente em duas colunas e ornamentada com um altar, onde antigamente se podia apreciar três imagens: a da Nossa Senhora da Conceição, a de Santo António, e a de Santa Margarida, sendo esta última foi trasladada para o Convento da Arrábida a fim de não ser vítima de sequestro como tantos objetos que por cá se guardavam. Agora a capela virou estanheira de todos os que querem ofertar à Santa – sejam velas, fotografias, anéis, pulseiras…


A capela terá sido construída no século XVII ou talvez XVIII, enquanto lugar de culto cristão que, muito provavelmente, terá sucedido a outros cultos anteriores, nomeadamente relacionados com a água ou mesmo com ritos iniciáticos ligados à ideia de renascimento da alma.

Terra e água

Altar pagão?


Não há como negar: estar dentro da Lapa de Santa Margarida remete-nos para a semente da nossa existência, para o útero maternal, a nossa saída da lura, feita em direção à luz, poderá significar o novo homem, renascido, num novo parto, agora obviamente simbólico.


Ter-se atribuído a gruta a Santa Margarida que, apesar de ser considerada por muitos crentes como uma bem aventurada fictícia, foi popularmente tida como padroeira das mulheres grávidas, sublinha este elo possível entre a cavidade e os órgãos reprodutores femininos.


De facto, tendo em conta que os homens da faina não têm por tradição venerar Santa Margarida, preferindo outros mais coniventes com a natureza marítima, como o são São Bartolomeu ou a Senhora da Salvação, é de estranhar que uma gruta que dá de caras com o mar tenha adotado uma mulher que em pouco ou nada está relacionada com o elemento água.


Desconfiamos que por aqui se fazem rituais menos católicos, provavelmente bem desvirtuados de outros pré-cristãos que eventualmente aqui se celebraram também: há utensílios resguardados no altar que apontam para práticas de bruxaria, digamos, contemporânea.

Enfim, um grande mistério que só ajuda a empurrar o lugar para o longo catálogo do Portugal mitológico.


A lenda


Ligada à existência da gruta estão, como é costume, relatos de certas lendas.


Uma delas, de curta narrativa, dá-nos apenas conta de que daqui partiria um túnel profundo, para terminar no atual Convento da Arrábida, sítio onde, como já foi dito, se encontra a imagem de Santa Margarida.


Uma outra fala-nos acerca de uma perseguição de barco entre piratas norte-africanos e um grupo de cristãos, em dia de tempestade, os primeiros ficaram encalhados no emaranhado de rochas que desponta na costa da Arrábida, e os segundos viram uma gruta onde se esconderam até que o tempo lhes desse uma oportunidade de fuga, acabando por sobreviver e a lapa que lhes deu abrigo foi brindada com uma capela, num gesto de agradecimento.



46 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo